Os próximos dias: A depressão global e a governança global

15/11/2010 01:45

O papel dos think thanks das elites corporativas secretas globais

Agora estamos a beira do abismo financeiro global de uma 'Grande Depressão da Dívida Global', onde nações, atoladas em extrema dívida, estão começando a implantar medidas de 'austeridade fiscal' para reduzir seus déficits, que acabará por resultar em genocídio social global sistemático, enquanto a classe média desaparece e as bases sociais sobre as quais nossas nações repousam são varridas. Como chegamos aqui? Quem nos trouxe aqui? Para onde essa estrada está nos levando? Estas são perguntas que eu tentarei responder brevemente.

No coração da economia política global está o sistema bancário central. Bancos centrais são responsáveis por imprimir a moeda da nação e estabelecer as taxas de juros, assim determinando o valor da moeda. Isso sem dúvida deveria ser a prerrogativa de um governo nacional, contudo, os bancos centrais são de uma natureza particularmente enganosa, na qual enquanto estando imbuídos de autoridade governamental, eles são de fato propriedade particular dos grandes bancos mundiais, e são dessa forma instituições com fins lucrativos. Como os bancos centrais conseguem lucro? A resposta é simples: como todos os bancos conseguem lucros? Juros sobre as dívidas. Empréstimos são feitos, taxas de juros são estabelecidas, e lucros são auferidos. É um sistema de dívida, a economia imperial no seu melhor.

Nos Estados Unidos, o presidente Woodrow Wilson assinou a Lei da Reserva Federal em 1913, criando o sistema da Reserva Federal, com o escritório localizado em Washington, nomeado pelo presidente, mas onde o verdadeiro poder estava em 12 bancos regionais, o mais importante deles, o banco da reserva federal de Nova York. Os bancos federais regionais eram bancos privados, possuídos por ações pelos maiores bancos em cada região, que elegiam os membros do conselho para representá-los, e que então compartilhavam o poder com o conselho da reserva federal em Washington.

Nos idos de 1920, o Conselho de Relações Exteriores (CFR) foi formado nos Estados Unidos como o principal think tank de política exterior, dominado por poderosos interesses bancários. Em 1930, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) foi criado para administrar os pagamentos das indenizações da Alemanha, mas também tinha outro papel, que era muito menos conhecido, mas muito mais significativo. Era para agir como um "coordenador das operações dos bancos centrais ao redor do mundo". Essencialmente, ele é o banco central para os bancos centrais do mundo, cujas operações são mantidas 'estritamente confidenciais'. Como o historiador  Carroll Quigley escreveu:

"Os poderes do capitalismo financeiro tinham outro objetivo de longo alcance, nada menos do que criar um sistema mundial de controle financeiro em mãos privadas capaz de dominar o sistema político de cada país e a economia do mundo como um todo. Esse sistema era para ser controlado de um modo feudal pelos bancos centrais do mundo agindo em conjunto, por acordos secretos alcançados em frequentes reuniões e conferências privadas. O ápice do sistema seria o Banco de Compensações Internacionais na Basileia, Suíça, um banco privado possuído e controlado pelos bancos centrais mundiais que eram eles próprios corporações privadas."

Em 1954, o Grupo Bilderberg foi formado como um think tank global secreto, compreendendo as elites intelectuais, financeiras, corporativas, políticas, militares e de mídia da Europa Ocidental e da América do Norte, com importantes banqueiros como  David Rockefeller, bem como a Realeza Europeia, como a família real holandesa, que é a maior acionista na Royal Dutch Shell, cujo CEO comparece a toda reunião. Esse grupo de aproximadamente 130 membros da elite se encontra todo ano em segredo para discutir e debater assuntos globais, e para estabelecer metas gerais e realizar agendas mais amplas em várias reuniões. Esse foi inicialmente formado para promover a integração europeia. A reunião de 1956 discutiu a integração europeia e a moeda comum. De fato, o atual Presidente do Grupo Bilderberg contou a imprensa europeia no ano passado que o euro foi debatido no Grupo Bilderberg.

Em 1973, David Rockefeller, Presidente e CEO do Chase Manhattan Bank, Presidente do Conselho de Relações Exteriores e um membro do Comitê Gestor do Grupo Bilderberg, formou a Comissão Trilateral com o acadêmico do CFR Zbigniew Brzezinski. Naquele mesmo ano, os choques do preço do petróleo criaram uma riqueza do dinheiro do petróleo, que foi discutido na reunião do Bilderberg naqueles 5 meses antes dos choques do petróleo, e o dinheiro foi canalizado através dos bancos ocidentais, que o emprestaram as nações do 'terceiro mundo' desesperadamente necessitadas de empréstimos para financiar a industrialização.   

Quando Jimmy Carter se tornou presidente em 1977, ele nomeou mais de duas dezenas de membros da Comissão Trilateral em seu gabinete, e, é claro, Zbigniew Brzezinski, que era seu conselheiro de Segurança Nacional. Em 1979, Carter nomeou o ex-assessor e amigo de David Rockefeller,  Paul Volcker, que tinha ocupado vários cargos no banco da Reserva Federal de Nova York e no Departamento do Tesouro americano, e que também acontecia de ser um membro da Comissão Trilateral, como presidente da Reserva Federal (FED). Quando outro choque do petróleo teve lugar em 1979, Volcker decidiu aumentar as taxas de juros de 2% do final dos anos 70, para 18% no início dos anos 80. O efeito que isso teve foi que os países em desenvolvimento de repente tinham que pagar enormes juros sobre seus empréstimos, e em 1982, o México anunciou que não mais podia pagar seus juros, e declarou a moratória de sua dívida, que deu início à crise da dívida nos anos 80 - derrubando as nações em dívida através da América Latina, África e partes da Ásia.

Foi então que o FMI e o Banco Mundial vieram em 'socorro' do Terceiro Mundo com seus 'Programas de Ajuste Estrutural', que forçaram os países que buscavam assistência a privatizar todas as empresas e recursos estatais, desvalorizar suas moedas, liberalizar suas economias, desmantelar a saúde, educação e serviços sociais; que finalmente resultou na re-colonização do 'terceiro mundo' enquanto as corporações ocidentais e os bancos compravam todo o patrimônio e recursos delas, e finalmente criaram as condições do genocídio social, com a disseminação da pobreza em massa, e a emergência das elites nacionais corruptas que eram subservientes aos interesses das elites ocidentais. As pessoas nestas nações protestaram, se revoltaram e se rebelaram, e os estados reprimiram com a polícia e os militares.

No Ocidente, corporações e bancos viram uma quebra rápida e recorde de lucros. Essa foi a era na qual o termo 'globalização' emergiu. Enquanto os lucros subiram, os salários para as pessoas no ocidente não subiram. Assim, para consumir em uma economia na qual os preços estavam se elevando, as pessoas tiveram que fazer dívidas. É por isso que essa era marcou a ascensão de cartões de crédito abastecendo o consumo, e a classe média se tornou uma classe baseada inteiramente sobre dívidas.

Nos anos 90, a 'Nova Ordem Mundial' nasceu, com a América dominando a economia global, acordos de livre comércio começaram a integrar os mercados regionais e globais para benefício dos bancos e corporações globais, e a especulação dominou a economia.

A crise econômica global surgiu como resultado de décadas de imperialismo global - conhecido recentemente como 'globalização' - e o crescimento imprudente da - especulação, derivativos e uma explosão da dívida. Enquanto a crise econômica se espalhava, as nações do mundo, particularmente os Estados Unidos, resgataram os principais bancos (que deveriam ser deixados desintegrar-se e fracassar sob sua própria corrupção e ganância), e agora o ocidente essencialmente privatizou lucros para os bancos, e socializou o risco. Em outras palavras, as nações compraram as dívidas dos bancos, e agora o povo tem de pagar por isso. O povo, contudo, está imerso em suas próprias dívidas pessoais a tal ponto que hoje o canadense médio está com $39.000 de dívida, e os estudantes estão se graduando em um mercado sem empregos com dezenas a centenas de milhares de dólares de dívidas de estudantes que eles nunca pagarão. Por isso, agora estamos em face de uma crise global de endividamento.

Para administrar a crise econômica, o G-20 foi estabelecido como o grande fórum internacional para cooperação entre as 20 maiores economias do mundo, incluindo as maiores economias em desenvolvimento - ou emergentes - como a Índia, Brasil, África do Sul e China. No início da crise financeira, os bancos centrais da China e da Rússia começaram a pedir o estabelecimento de uma moeda global para substituir o dólar como a moeda de reserva mundial. Essa proposta foi apoiada pelas Nações Unidas e pelo FMI. 

Deveria ser notado, contudo, que os bancos centrais russos e chineses cooperam com os bancos centrais ocidentais através do Banco de Compensações Internacionais (BIS) - que o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, recentemente disse que era o principal fórum para a 'governança da cooperação entre bancos centrais' e que o G-20 é "o principal grupo para a governança econômica global". Em 2009, o FMI afirmou que o BIS "é o ponto focal central e mais velho para coordenação dos arranjos da governança global". O presidente da União Europeia, nomeado para a posição depois de comparecer a uma reunião do Bilderberg, declarou 2009 como o "primeiro ano da governança global". 

A reunião de 2009 do Bilderberg informou sobre o desejo de criar um tesouro global, ou um banco central global, para administrar a economia mundial. Em 2009, antes da reunião do Bilderberg de fato, o G-20 pôs em ação planos para fazer o FMI um tipo de banco central global, emitindo e até imprimindo sua própria moeda - chamada Direitos de Saques Especiais (SDRs) - que é avaliada contra uma cesta de moedas. Em maio de 2010, o diretor-geral do FMI afirmou que a "crise é uma oportunidade," e enquanto os Direitos de Saques Especiais são um passo na direção certa, finalmente o que é necessário é "uma nova moeda global emitida por um banco central global, com robustas características de governança e institucional." Assim, vemos a emergência de um processo em direção a formação de um banco central global e uma moeda global, totalmente inexplicável para qualquer nação ou povo, e totalmente controlado por interesses bancários globais.     

Em 2010, a Grécia foi mergulhada em uma crise da dívida, a crise que agora está se espalhando através da Europa, para a Inglaterra e eventualmente para o Japão e os Estados Unidos. Se olharmos para a Grécia veremos a natureza da crise global da dívida. A dívida é devido aos grandes bancos europeus e americanos. Para pagar os juros sobre a dívida, a Grécia teve de conseguir um empréstimo do Banco Central Europeu e do FMI, que forçou o país a impor medidas de 'austeridade fiscal' como uma condição para os empréstimos, pressionando a Grécia a cometer genocídio social. Enquanto isso, os maiores bancos da América e da Europa especulam contra a dívida grega, mergulhando ainda mais o país na crise social e econômica. O empréstimo foi concedido, para pagar os juros, que tem ainda simplesmente o efeito de adição a dívida global, como um novo empréstimo, é uma nova dívida. Assim, a Grécia é apanhada na mesma armadilha da dívida que recolonizou o terceiro mundo.

Na recente reunião do G-20 em Toronto, as maiores nações do mundo concordaram em impor austeridade fiscal - ou em outras palavras, cometer suicídio social - dentro de suas nações, em um verdadeiro programa de ajuste estrutural global. Assim agora veremos o começo da grande depressão global da dívida, na qual as maiores nações ocidentais e globais cortam gastos sociais, criam desemprego em massa pelo desmantelamento da saúde, educação e serviços sociais. Além disso, a infraestrutura estatal - como estradas, pontes, aeroportos, portos, estradas de ferro, prisões, hospitais, linhas de transmissão elétricas e água - serão privatizadas, de forma que as corporações globais e bancos possuirão a totalidade dos patrimônios nacionais. Simultaneamente, é claro, os impostos subirão dramaticamente para níveis nunca antes vistos. O BIS disse que as taxas de juros deveriam aumentar ao mesmo tempo, significando que os pagamentos de juros sobre a dívida aumentará dramaticamente tanto a nível individual como nacional, forçando os governos a voltarem ao FMI para pegar empréstimos - provavelmente na forma de sua nova moeda de reserva global - para simplesmente pagarem os juros, e assim estarão absorvendo mais dívida. Simultaneamente, é claro, a classe média terá com efeito suas dívidas cobradas, e desde que a classe média existe somente como uma ilusão, a ilusão desaparecerá. 

Agora mesmo bairros, cidades e estados pelos Estados Unidos estão recorrendo a ações drásticas para reduzir suas dívidas, tais como fechamento de quartéis de bombeiros, fazendo escalas para a coleta de lixo, desligando a iluminação das ruas, acabando serviços de ônibus e transporte público, diminuindo o horário das livrarias ou fechando-as, distritos escolares reduzindo dias de aulas, semana ou ano. Simultaneamente, isso está ocorrendo com dramático aumento na taxa de privatizações ou "parcerias público-privadas" nas quais até livrarias estão sendo privatizadas.


Não admira então, que este mês, o diretor-gerente do FMI avisou que a América e a Europa, no meio da pior crise de empregos desde a Grande Depressão, enfrentam uma "explosão de inquietação social". Ainda ontem, a Europa experimentou uma onda de protestos em massa e inquietação social em oposição as 'medidas de austeridade', com uma greve geral na Espanha envolvendo milhões de pessoas, e uma marcha na sede da União Europeia em Bruxelas de quase 100.000 pessoas. Como a agitação social se espalha, os governos provavelmente reagirão - como podemos ver no caso do G-20 em Toronto - com medidas opressivas da polícia estatal. Aqui, vemos a verdadeira relevância da emergência da 'Segurança Pública do País', planejada não para proteger as pessoas dos terroristas, mas para proteger os poderosos do povo.

Assim como as coisas nunca tinham parecido tão sombrias, há um fraco e crescente farol de esperança, no que Zbigniew Brzezinski denominou como a maior ameaça aos interesses da elite em todos os lugares - o 'despertar político global'. O despertar político global é representativo do fato de que pela primeira vez em toda a história humana, a humanidade está politicamente desperta e viva, ativa e consciente, e que geralmente - como Zbigniew Brzezinski explica - geralmente está ciente das desigualdades globais, exploração e desrespeito. Esse despertar é grandemente o resultado da revolução da informação - assim revelando a natureza contraditória do projeto de globalização - como enquanto globaliza poder e opressão, assim também globaliza consciência e oposição. Esse despertar é a maior ameaça aos interesses entrincheirados da elite em todo lugar. O despertar, embora tenha raízes no sul global - já há muito submetido a exploração e devastação - está agora se agitando no ocidente, e crescerá enquanto a economia desmorona. Enquanto a classe média compreende que seu consumo era uma ilusão de riqueza, eles buscarão respostas e exigirão verdadeira mudança, não a marca 'empacotada' da mudança de Wall Street de Obama Inc., mas mudança verdadeira, inspirada e fortalecedora. 
Em 1967, Martin Luther King fez um discurso no qual ele falou contra a guerra do Vietnam e o império americano, e ele afirmou que, "parece que estamos do lado errado de uma revolução mundial." Assim agora parece para mim que chegou a hora para essa mudança.

Andrew Gavin Marshall é um pesquisador associado ao Centre for Research on Globalization (CRG).  

Fonte: http://www.novaordemglobal.blogspot.com/